CAPÍTULO 06
ESBANJANDO “RIQUEZA”
Ele pegou algumas poucas verduras, hortaliças e frutas, ele picou todas fazendo uma salada colorida e atraente, colocando o arroz em uma grande panela de cobre, que ele chorou um pouco ao comprar, pois era muito cara na época, mas necessário, despejando água e 75 ml de vinho branco, depois ele colocou alguns temperos verdes e deixou cozinhar em fogo brando.
“Allan, você não vai trabalhar hoje?” Aysha perguntou vendo o filho ocupado na cozinha, o almoço já estava encaminhado e o filho parecia estar fazendo algo diferente, pegando açúcar, amido, ovos, sal, farinha, enfim, quem sabe ele estivesse fazendo algum tipo de sobremesa.
“Hoje não mãe, aconteceu algo terrível na igreja e as coisas na cidade estão tensas, os guardas estão mais rigorosos e poucas pessoas devem estar circulando pela rua hoje, não é bom sair agora”
Allancaster trabalhava vendendo poções de cura em uma tenda no comércio da cidade, o que era bem comum para os trabalhadores que moram na favela conseguir um trocado vendendo peixe e outros itens, no caso de Allan ele alugava uma das tendas com um preço médio que ficava localizado bem no centro comercial devido aos itens valiosos que ele vendia, já que poções de cura e de recuperação são consideradas em alta cota principalmente em um mundo que não tem um sistema de saúde que auxilie a população.
Dizer que os itens de Allancaster não estavam quentes no comércio seria cego aos efeitos destes itens preciosos, em outro momento o sucesso dele seria invejado pelos outros comerciantes, mas como os itens eram bens médicos necessários para muitos, a inveja foi substituída por bajulação e boa vontade, afinal, ser amigo de um jovem aprendiz de alquimista não causava nenhum dano, já ao contrário eles poderiam ter muitos problemas.
Assim Allancaster conseguiu angariar dinheiro para pagar a dívida e juntar dinheiro para finalmente comprar uma casa no centro da cidade com uma loja no térreo para continuar as vendas das poções.
No entanto, como a guarda da cidade estava muito mais agressiva que o normal, muitos comerciantes não abriram suas lojas com medo de serem enquadrados e levados para interrogatório.
Ele então conversa com a mãe sobre os “boatos” que ele escutou quando foi ao mercado que abria com as padarias e a igreja, então antes do incidente ser descoberto o mercado já estava aberto para a sorte dele, afinal, depois do que aconteceu o mercado fecharia mais cedo, pois ninguém iria comprar nada com os guardas mais agressivos e ansiosos para pegar alguém suspeito.
Os que já estavam no mercado rapidamente todos se recolheriam, restaurantes não abririam, as pousadas e estalagens estavam com medo de que seus hóspedes fossem responsáveis ou tivessem algo relacionados com este caso, os pequenos comerciantes se escondiam tremendo pensando se seus fornecedores duvidosos estivessem envolvidos também e a guilda dos comerciantes se reuniram para ver como o Mercado reagiria a este caso escabroso se isso afetaria os lucros e o recebimento das mercadorias.
Na verdade, Allancaster não escutou boato algum, porque se os boatos tivessem chegado ao mercado naquele momento ele não poderia ter comprado nada, já que todos estariam correndo para fechar os negócios, ele só contou algumas coisas que ele sabia do enredo de maneira superficial parecendo realmente um verdadeiro boato, essa foi a melhor maneira para poder avisar a mãe e os irmãos do perigo, sem parecer ter tirado do absoluto nada.
Aysha ficou em silêncio por um momento, mas não comentou nada e continuou ensinando Neon que estava felizmente distraído olhando os desenhos que o irmão fez nos livros e não prestou muita atenção as palavras dos adultos, esse tipo de assunto não é bom se aprofundar com uma criança por perto.
Além disso, Aysha não sentia simpatia alguma pelos clérigos do Império Rosário, porque essas pessoas foram as causadoras da separação entre ela e o primeiro marido, pai de Allancaster, então ela só tem memórias ruins e emoções negativas em relação a essas pessoas e seus cargos “santos”.
Por fim, Allancaster fez biscoitinhos de amido com um pouco de geleia de morango, essa seria a sobremesa para o almoço, ele estava um pouco criativo na cozinha hoje e ainda preparou uma torta de mirtilo que era a favorita de Helena para o jantar.
As batatas foram tiradas do forno improvisado, o arroz cozinhou e ele picou mais algumas verduras misturando com algo semelhante à farofa misturando com o arroz despejando em uma travessa de cerâmica colocando diretamente no forno quente.
Algumas poucas horas depois o almoço estava pronto, com arroz de forno ao leite, batatas gratinadas, salada colorida, carne de frango caramelizada com mel e carne de frango cozinhada na cerveja, a carne de porco ficaria marinando até a hora do jantar.
Quem sabe ele se sentisse com um grande desejo de comemorar, afinal, ele estava se preparando para escapar da morte e vencer o enredo malicioso, Aysha olhou para o filho esbanjando o dinheiro em comida, mas não comentou nada, ela bem sabia que o filho havia se segurado por muito tempo para não atrair olhares maliciosos dos outros.
Ela sabia do talento do seu filho para cozinhar, mas como era preto, vivendo em favela e tinha um corpo e rosto que exalavam perigo, com a cicatriz larga que arruinava o rosto masculino e corajoso dele, o seu filho no máximo só iria ser uma ajudante da cozinha sendo escondido pelos estabelecimentos.
Aysha se sentia um pouco amarga ao olhar para o rosto marcado do filho mais velho, ele era para ser um herdeiro orgulhoso e bonito, mas por conta da nacionalidade “barbara” dela, muitos inimigos e “amigos” quiseram que ela e seu filho morressem, ela, por outro lado, fugiu longe para viver com o filho.
No final, o filho se tornou mercenário e se perdeu no mundo, quase morrendo e ainda ficou com o corpo cheio de cicatrizes. Aysha olhou para o filho usando magia para cozinhar, observando o filho com o mesmo talento do pai, mas vivendo escondido como se fosse um criminoso, escondendo o brilho dele.
Aysha mordeu os lábios, mas não disse nada. Ela uma vez tentou falar sobre o pai de Allancaster com ele, mas foi rechaçada com força e o filho friamente disse que não queria se envolver com a família do pai, queria uma vida pacífica e calma longe de todos os problemas dos nobres.
“Mãe?”
Neon chamou algumas vezes, só então Aysha olhou para o filho que era tão diferente de seus dois outros filhos mais velhos, o seu mais novo era branco como a neve e tão parecido com os “cidadãos de bem” do império.
Aysha acariciou os cabelos grossos e macios do filho, afastando a força os pensamentos amargos de ter fugido anos atrás de sua terra natal para viver um amor, que se provou tão frágil quanto esses vidros baratos que se vendia no grande mercado de pulgas.
Por fim, após limpar a cozinha, Allancaster pegou o peixe que ainda parecia um tanto frio, graças ao feitiço “froste” que ele usou para preservar o peixe. Ele faria linguado que seria banhado por suco de laranja e ervas leves, com a acompanhamento de purê de abóbora e cogumelos redondos grandes, ficaria ótimo com a bolinhos de arroz frito recheado com o que sobrace da salada e da carne depois do almoço.
Allancaster estava inspirado apesar de lamentar um pouco que ele não tivesse uma desculpa para fazer pratos da vida passada dele, ele jurou que ele compraria livros falando sobre o assunto para poder fazer livremente esses pratos sem despertar as suspeitas dos amigos e familiares, assim que se livrasse do protagonista.
Porco e peixe para o jantar, com bolinhos de arroz frito e recheados, ele poderia fazer algum caldo para acompanhar, não seria muito pesado e seria muito satisfatório, a irmãzinha dele ficaria feliz comendo a torta de mirtilo e um bom jantar após o último dia de trabalho como faxineira no bordel.
Ah, Allancaster estava esbanjando, finalmente, a riqueza acumulada dele, ele realmente tinha que estar inspirado.
Ele poderia esbanjar agora, já que nesta semana ele se mudaria para outro lugar, então mesmo que os vizinhos descobrissem depois, já seria tarde demais e ele estaria longe deste lugar com a família dele.
O mundo parecia brilhar melhor só de pensar que estaria longe do protagonista.
O tempo passou rápido e as fofocas logo chegaram nas favelas um pouco após o horário do almoço, não poderia ser diferente, já que os guardas e as sentinelas estavam percorrendo em grupo as ruas comerciais e próximas à igreja em busca de pistas, a nomeação de um responsável pela investigação continua para sair, pois muitos nobres não querem fazer parte dessas investigações, a pressão era grande demais.
As favelas seriam o próximo ponto a ser investigado, mesmo os bordeis não escapariam da inspeção, quem sabe as tabernas fossem fechadas temporariamente ou para sempre a depender de quão duro os interrogatórios e a caçada pelo assassino fossem.



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