CAPÍTULO 05 – FAMÍLIA
Aysha Lawan, é uma mulher de 42 anos com algumas poucas rugas no canto da boca e entre as sobrancelhas, a pele escura dela era de um tom retinto só visto pelas pessoas que vivem além do deserto, naquelas tribos que o império considera de bárbaros.
Os olhos dela eram redondos e grandes com cílios escuros o que dava um ar de inocência velada ao rosto já maduro, as irises parecem o mais dourado uísque de qualidade superior brilhando como âmbar contra o sol, o que é uma das características da Tribo da Lua Prateada, com os cabelos brancos como a neve.
Os cabelos como a lua e os olhos como estrelas, as crianças da noite e a encarnação da vontade da deusa da lua, essa era a tribo da lua prateada.
“Mãe, a senhora se sente melhor?” Allancaster pergunta se aproximando da mãe e oferecendo o braço para que a mulher se apoiasse para andar.
As dores do corpo de Aysha pioraram nos últimos dias da primavera que ainda era um pouco frio por esse lado do litoral, o que a deixou de cama por um longo tempo.
“Eu estou um pouco melhor desde que o bom doutor me deu o remédio” Aysha disse tentando tranquilizar o filho mais velho, mas ele tomou ainda o cuidado de fazê-la se sentar na cadeira para se juntar a diversão de ver os itens na mesa com Neon.
“Isso é bom, eu comprei o que o doutor falou. Mais tarde vou pedir para Helena preparar as cocções para a senhora”
Helena é o nome da irmã mais nova de Allancaster, ela tinha uma figura muito parecida com a mãe, ao que parece as características das mulheres da tribo da lua prateada só seriam passadas integralmente para a próxima geração feminina.
“Onde você conseguiu dinheiro? Filho… Você não está se envolvendo com aquelas pessoas de novo, eu espero” Aysha disse com algo de preocupação na voz.
“Não se preocupe mãe, eu vendi todas as poções de cura ontem, então eu tenho uma boa quantidade de dinheiro agora, podemos comprar essas coisas sem peso na consciência” Allancaster disse calmamente, enquanto colocava um saco pardo de pão próximo à mãe; o pão estava quentinho e cheirava bem.
Era pão branco!
Neon sentiu as papilas gustativas salivarem, ele já queria pegar um e afundar os dentes, mas diante da mãe que não se moverá para pegar um pão, ele esperou sentado com os olhos brilhando de ansiedade.
“Não sei se é uma benção ou uma maldição que a Floresta de Ferro Negro esteja passando pelo verão sangrento” Aysha comentou baixinho, com algum alívio que o filho pudesse lucrar mesmo assim.
Na época em que ela conheceu o pai de Neon, um rico comerciante que comprou um título nobilitário de Barão, Allancaster já tinha 18 anos e saiu de casa dizendo que ia ganhar o mundo, ele não queria atrapalhar a nova vida da mãe, sem falar que a família do novo marido da mãe eram todos um bando de hienas e hipócritas que só queriam humilhar o adolescente devido à descendência de tribo dele e a pele dele que não eram tão “escura” quanto a da mãe dele e nem tão clara quanto as pessoas do império, um triste mestiço que era uma vergonha para a dignidade do império.
Os mestiços eram piores do que os bárbaros reais fora das fronteiras, porque eles eram o símbolo (ou suposto símbolo) da decadência da decência e da moral do império por conceber tais pessoas com sangue impuro.
Enfim, Aysha não impediu o filho de partir e eles ficaram apenas se comunicando por cartas durante os próximos dois anos, até o nascimento de Neon e a morte do marido dela.
O filho parecia ter se tornado outra pessoa, bem, pelo que ela soube o filho dela havia passado por uma situação de vida e morte, sendo o único sobrevivente de uma missão misteriosa.
De certa forma era compreensível que o filho dela tivesse mudado tanto devido a um evento tão traumático, claro, havia os dois anos que o filho estava longe dela. O que o filho dela teve que enfrentar sozinho por todo aquele tempo?
O verão sangrento é a época que os monstros, que vem de algum lugar misterioso da montanha do país fronteiriço, invade a Floresta de Ferro Negro e muitas guildas e mercenários são chamados para combater os monstros, por isso, as vendas de poção de cura aumentaram substancialmente.
Apesar de não ser verão ainda, os monstros desceram mais cedo e o “festival” de caça começou mais cedo para os mercenários e os aventureiros, claro, os nobres ficavam felizes em recompensar tais pobres buchas de canhão que afastavam os monstros das cidades.
De qualquer forma desde que o filho dela não fosse participar do combate, Aysha apenas lamentou superficialmente pelas pessoas que ousavam jogar as vidas foras nas bocas dos monstros.
Allancaster arrumou as coisas com Neon o ajudando a guardar nas prateleiras, ele depois entregou alguns doces e bolos para a mãe e o irmãozinho para tomarem com dois copos de leites, a mãe mais gostava de tomar leite de cabra, pois lhe lembrava a terra natal dela.
Contudo, Allancaster que não suportava o forte cheiro do leite de cabra, sempre misturava com mel e especiarias como canela para tirar o forte cheiro do líquido. Neon finalmente conseguiu um pão branco e macio, não aquele pão de mistura de grãos duros e que ele não conseguia mastigar sem molhar na água.
Allancaster separou as ervas e as quantidades certas para a cocção do remédio, como a cocção tem que tomar quente só pode ser feito na hora, por isso Helena iria fazer mais tarde, já que ele teria que lidar com o protagonista naquela noite.
Após separar tudo, ele começou a fazer a comida para o almoço, já que a mãe e o irmãozinho já se fartaram com a comida, ele agora poderia se concentrar no almoço, ele mesmo comeu um pouco de pão com presunto defumado e uma caneca de leite de vaca.
“Neon, vamos ler alguns livros” Aysha disse se levantando lentamente, ela se apoiou na cadeira e o filho mais novo foi até a mãe muito obediente.
Os livros que Aysha falou eram os pequenos livros que Allancaster criou para entreter o irmãozinho, ele também foi atencioso em fazer livros educativos para que o irmãozinho aprendesse a ler e a escrever.
Aysha tinha conhecimento de leitura e escrita aprendidas na época em que ela conheceu o pai de Helena, então ela pacientemente ensinou aos filhos mais velhos e agora se sentava para ensinar o filho mais novo.
Allancaster começou a preparar a carne de porco, ele pegou uma garrafa de vinho de frutas-doces e vermelhas para deixar fermentando com a carne, o porco ficaria com um suave e doce perfume do vinho, além de colocar sal, alho, pimenta (branca e vermelha), ele tinha um fraco por comida apimentada.
Já o frango ele dividiu em duas porções, um ele faria ser banhado em cerveja e o outro seria caramelizado com mel sendo temperados com ervas, eles teriam dois tipos de carne o que seria um banquete para a família dele.
Cerveja e vinho eram as bebidas comuns mesmo para as pessoas que viviam nas favelas, já que eles não tinham acesso à água potável na maior parte do tempo. Claro, que haveria as bebidas de maior e melhor qualidade, os que os civis obtinham eram as mais comuns.
Se Allancaster não tivesse seus poderes mágicos para criar água potável para si, ele não saberia como viveria com o pensamento de desenvolver cirrose e/ou diabete no futuro por excesso de álcool.
Pegando as batatas e fatiando elas em meia luas temperando com sal, pimentas e ervas, os temperos que eram raros por todo o Império Rosário, mas não era algo raro na cidade portuária que recebia toneladas de temperos vindas do Continente Oriental todos os meses, desde que os civis comprem a cada início de mês, eles podem obter muitos temperos diferentes com boa qualidade e preços bem baratos.
O que era mais caro eram os alimentos perecíveis como verduras, frutas e hortaliças, as carnes eram fornecidas por outras cidades próximas, o que não seria algo tão caro, apesar de não ser tão acessível para quem mora nas favelas.
Os grãos se bem conservados poderiam ser importados e exportados, o que dava uma variedade maior aos moradores da cidade portuária com um preço acessível, quanto aos vegetais esses eram bastante preciosos e caros para as pessoas da cidade portuária já que eram cultivados por cidades rurais longínquas.
Todos comiam mais peixes e frutos-do-mar do que carne. A carne era um prato principal raro usados mais festividades e comemorações importantes, porque mesmo não sendo algo muito caro ainda não era tão barato quanto os peixes e frutos-do-mar.
“Ignos” Allancaster falou estalando os dedos em direção ao fogão a lenha, um pequeno fogo subiu pela madeira já chamuscada e pelo pouco carvão que restava.
Então ele lavou o arroz e deixou de molho um pouco, quando o forno esquentou, ele pegou o pote de banha, que era mais barato do que a manteiga e os óleos (soja, azeite, canola), claramente ainda não existia margarina neste mundo, então ele espalhou a banha com um pincel de cerdas grossas em uma travessa de cobre e colocou as batatas fatiadas em cima, depois pincelou as batatas por cima com a banha e colocou no forno.



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