CAPÍTULO 03 (PARTE 2)
ALLANCASTER O PERSONAGEM LATERAL ESQUECÍVEL
Se Allancaster não tivesse ganhado uma nova família neste mundo, ele poderia até entrar nesses treinamentos e se isolar do mundo aprendendo pouco a pouco em um lugar seguro para si e para os outros, mas se ele fizesse isto a pequena família dele passaria fome e morreria lá fora.
Não entenda mal, o Estado pagaria os custos para a família dele, mas Allancaster conhecia que tipo de mundo que ele havia transmigrado, as mulheres seriam intimidadas até cederem perante as fofocas e boatos malicioso, mesmo alguma violência psicológica e perseguição (stalker), seria ainda pior para as mulheres de pele escura, as pessoas do império, principalmente, os que viviam na linha da pobreza ou na classe baixa, tratavam pessoas de pele escura como se fossem seus inimigos pessoais, que roubariam empregos, esposas e corromperiam os seus filhos.
Pessoas de pele preta eram consideradas eternos forasteiros e que deviam ser expurgados do país.
A região do porto era muito menos preconceituosa do que o resto do império, já que recebia muitos imigrantes e muitos comerciantes ricos, mesmo estrangeiros curiosos de viagem, sem falar do recebimento de turistas de várias partes do continente, então o ambiente não era tão ruim para a família dele, mesmo assim, o coração dele não poderia se sentir seguro ao pensar que sua nova família pudesse ser prejudicada devido ao racismo.
A mãe e a irmãzinha dele tinham a pele escura e na época a irmã mais nova dele tinha apenas 15 anos, o que seria alvo fácil para os bordéis tentarem captar essa jovem flor para o jardim delas, principalmente, sem um homem na família que pudesse defender a honra dela.
Era este tipo de mundo que ele havia transmigrado.
Então ele teve que esconder seu forte poder mágico e tentou se recuperar sozinho, não havia sido tão difícil fazer dinheiro, já que ele tinha conhecimento de um mundo mais moderno do que o que ele atualmente vivia.
No entanto, manter o dinheiro foi algo extremamente difícil. Allancaster original havia contraído uma dívida grande, porque foi colocado na cabeça dele a culpa por falhar em uma missão milionária em que somente ele do grupo voltou vivo.
Claro, aquilo era o empregador tentando se justificar para o nobre que pediu a missão explodida em milhares de pedaços, então Allancaster começou já sendo atormentado pela Guilda dos Mercenários a pagar a dívida astronômica.
Eles até queriam vender a irmãzinha dele para algum bordel ou para um nobre que tivesse gostos peculiares para pagar a dívida, mas é claro que Allancaster acionou o poder judiciário, a lei era bem rígida sobre venda de pessoas, a escravidão havia sido abolida recentemente e as leis eram extremamente pesadas para reeducar a população e coibir a prática.
A ironia é que a justiça esteva do lado de Allancaster neste caso, mas quando se tratou da dívida injusta colada na cabeça dele, a justiça apenas diminuiu a porcentagem da dívida para algo um tanto aceitável, que ele poderia pagar com 10 anos de trabalho duro.
É… Ainda havia um longo caminho a ser percorrido para essa sociedade pôr fim aos pensamentos escravocratas e elitistas, se Allancaster fosse branco e não estrangeiro a dívida imaginaria teria sido investigada ou pelo menos reduzida ainda mais, mas ele não era e ainda tinha características dos bárbaros do deserto que eram inimigos jurados do Império Rosário.
De qualquer forma Allancaster conseguiu abrir um pequeno negócio de poção de cura, como em um jogo de RPG, as poções são os itens quentes do momento, poções de cura, poções de recuperação, poções de MANA, entre outras poções.
Principalmente agora que a industrialização estar a todo vapor e muitas pessoas se machucavam com os maquinários, perdendo membros, dedos e se queimando. Além disso, como Allancaster vivia perto do porto, havia sempre os estrangeiros que traziam doenças, commodities que vinham com pulgas e doenças, trabalhadores que adoeciam durante as viagens, então o pequeno negócio dele era muito lucrativo.
A diferença das poções feitas pelos profissionais alquimistas e as poções feitas por Allancaster, é que ele só precisava injetar o seu elemento principal na água e automaticamente a água se tornaria purificada e carregaria um efeito de sanar todos os males do corpo.
Claro, a depender da gravidade da doença, a poção poderia funcionar para diminuir os sintomas e a dor, este é o caso da mãe de Allancaster.
O corpo de Allancaster tinha uma afinidade inerente para com a luz, a boa mãe dele disse ser graças aos genes do Povo Hundi, que é de onde a mãe dele se original para além do grande deserto. Eles eram conhecidos pela pele escura, pela força física e pelos ataques ferozes, mas as mulheres que eram raramente vistas por forasteiros eram conhecidas como santas e donzelas devido ao poder da luz que elas tinham.
Raramente haveria homens do Povo Hundi com poderes da luz, já que a gentil luz era para a cura, precisando de movimentos mais delicados na manipulação, o que se adequava mais aos papéis das mulheres daquele povo. Allancaster seria considerado um homem raro para os Hundis.
Os forasteiros não sabiam disso, por isso a Guilda dos Mercenários não desconfiou que o ex-membro pudesse ter tais poderes fantásticos. Só se poderia imaginar o que eles fariam se soubessem que ameaçaram alguém tão útil e raro, eles com toda certeza vomitariam sangue de desgosto.
Então na superfície, Allancaster parecia ter um patrono alquimista, o que fez os cobradores dele não agirem de forma imprudentes e pacientemente coletaram o dinheiro sem causar bagunça, apesar de nunca encontrarem o tal alquimista.
Os alquimistas eram tidos em alta conta no Império Rosário, atuando no campo da medicina, na indústria, na farmacologia e nos equipamentos de guerra, por isso, mesmo sem ver o mestre de Allan, eles temiam o misterioso alquimista.
Havia uma Guilda dos Alquimistas para os alquimistas que não eram vinculados a nenhuma empresa ou governo, nem as famílias nobres e nem a universidade e escolas, mas eles eram discretos e não disponibilizavam as informações dos seus membros, apenas recebiam pedidos e um dos alquimistas poderia resolver aceitar o pedido, tudo feito muito discretamente.
Logo os mercenários ficaram com dúvidas, mas não tinham a quem pedir informações, mas vendo as poções de Allan funcionando bem, eles tiveram ainda mais suspeitas que o mestre de Allan era realmente um alquimista poderoso e errante.
Felizmente, três anos depois Allancaster conseguiu pagar a dívida dele e começou a juntar dinheiro para começar uma nova vida, eles iriam primeiro para um bairro comercial, onde ele ficaria sob a proteção do bom doutor Dagoberto e aprenderia a exercer os seus poderes para se tornar um médico, se ele tivesse sorte poderia entrar da Guilda dos Médicos e receber um certificado para atuar em qualquer lugar do continente.
O doutor que apesar de humilde era um homem filho da nobreza, terceiro filho de um conde, apenas contando com uma pequena herança por parte dos avôs já falecidos, ele deixou tudo para trás e se enterrou na cidade portuária próspera do império, a bela Shagan.
Doutor Dagoberto era um médico muito conceituado na cidade e mesmo os estrangeiros o buscavam para tratamento, ele até era um professor externo da Academia Devon que era especializada em medicina e comercio exterior.
Quem sabe com esse apoio forte Allancaster não se torne alguém importante na cidade um dia, certo?
“Allan, você trouxe os doces?” o garotinho perguntou com olhos brilhantes e riu de uma maneira gostosa ao ser pego nos braços fortes do irmão.
“Claro, que eu trouxe os doces que prometi, também tem pão, geleia, frutas…” a voz de Allancaster era quase doce quanto o mel enquanto ele falava para o irmãozinho, levando os dois para a pequena cozinha da casa.
Por enquanto, ele era apenas um pequeno negociante e um bom irmão mais velho.
Ainda um pequeno ninguém.


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